Cambuci expressa vocação natural de município do Alto da Serra

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A proprietária do sítio Portal dos Anjos, em Rio Grande da Serra, começou a plantar pés de Cambuci na paisagem montanhosa de sua propriedade e provocou uma importante mudança no panorama do meio ambiente local. O que no passado foi ocupado por pastagens animais deu lugar a árvores de médio porte, plantadas a partir de espécies da própria mata do entorno, e que hoje embelezam a área, somando até 1 mil pés de Cambuci adultos.

Nancy Carvalho chegou à terra há cerca de 30 anos e, junto com o marido, dedicou-se exclusivamente ao haras do sítio, com até 40 cavalos, escola de treino e participação em leilões. A partir de 2000, passou a usar algumas mudas de Cambuci nas áreas desmatadas e, aos poucos, foi ocupando o terreno com novos pés, transformando o cenário do sítio em um espaço de cultivo de espécies nativas.

Há ali um Cambucizeiro com cerca de 80 anos, chamado por ela de “pai de todos” e outros pés originais próximos à floresta preservada, o que facilita a reintrodução da espécie na área, por encontrar condições semelhantes a do seu ambiente nativo.

De fato, é visível a recuperação ambiental dos 12 hectares do sítio, o solo tornou-se mais rico e houve aumento na produção do fruto, envolvendo também a contratação de funcionários locais. Chega-se a colher até 250 quilos do fruto por árvore e “o que cai no chão também alimenta a fauna, como pacas e roedores… por que não deixar um pouco para eles se fazem parte da cadeia alimentar?”, comenta Nancy.

O contato com a Coopercambucy, de Rio Grande da Serra, deu uma nova dimensão ao seu trabalho com o fruto, comprovando o valor da espécie e sua importância para geração de renda no município. “Foi uma descoberta, muitas pessoas têm a cultura do Cambuci enraizada, vi que não era só eu que colhia, e passei a levar os frutos para a cooperativa”, conta.

Há uma vocação do município para o desenvolvimento sustentável baseado nos frutos da Mata Atlântica, com séculos de tradições ligadas ao Cambuci e, atualmente, a presença de pessoas envolvidas com sua disseminação. Uma dessas lideranças, a cooperada Ivone Lopes Rodrigues, confirma esse potencial pelo papel na descoberta de novos parceiros e plantadores.

Nancy e Ivone se conheceram na estrada que leva ao sítio, e logo passaram a trabalhar juntas no haras. A amizade também aproximou as duas do interesse pelo fruto e Ivone plantou pés na chácara onde vive com o marido, assumindo a entrega mensal de até 300 quilos para a cooperativa.

Isso envolve descobrir novos produtores locais e ser uma espécie de “caçadora de Cambuci” em diferentes situações. “Comentei na escola de natação que precisava do fruto, e descobri uma pessoa que tem pés no sítio, também conheci um senhor que tinha 200 árvores de Cambuci, passei a comprar dele, hoje já adquiriu dois freezers para armazenar o fruto em seu sítio”, conta Ivone.

Segundo ela, é uma grande satisfação trabalhar com a espécie pela possibilidade de reverter o risco de extinção. “É uma fruta nossa, com várias qualidades, então brinco que não é a mesma paixão, por exemplo, que trabalhar com banana”.

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Levar a cultura do fruto

A Coopercambucy é a única do país que desenvolve o trabalho com o fruto nativo e funciona com base na entrega de uma quantidade mínima por cada um dos 21 cooperados. Em 2015, conquistou o selo de regularização da cachaça de Cambuci, pela Receita Federal, que permite comercializar a bebida em estabelecimentos comerciais em geral.

“Foi uma vitória após seis anos de esforço, envolvendo a classificação, com a análise dos produtores, a definição da categoria da cooperativa, até a confecção final do selo”, conta Nancy.

Segundo Ivone, fazer parte do grupo significa um compromisso com o resgate e a divulgação do Cambuci. “Não basta vender o fruto, é preciso passar essa cultura aos outros, promover o plantio para gerar renda”, destaca.

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Conversa ao pé da árvore

Atual presidente da Coopercambucy, a produtora Maria Teresa Curvelo conta que a origem dos Festivais Gastronômicos se deve à busca da prefeitura por um símbolo que fosse a identidade do município. “O Cambuci é algo único e está presente na vida dos moradores, basta entrar num bar ou estabelecimento e você descobre uma prateleira com a cachaça curtida no fruto”, diz.

Sua dedicação à cooperativa vem da própria paixão pelo cultivo dos pés de Cambuci que mantêm no grande quintal da casa onde vive, no centro de Rio Grande da Serra. “Meu marido chegava a brincar que o interesse era maior pelas árvores do que por ele”. De fato, a rotina no quintal envolve até conversar com as plantas, enquanto aduba a terra ou limpa as folhas sujas pela poeira da cidade, pelo cuidado que acredita afetar a saúde dos pés.

Sua área possui árvores de limão, laranja, ameixa, e combinações de várias espécies da Mata Atlântica, como uvaia, goiaba, araçá e os 13 pés de Cambuci.

Desses, cada um possui características próprias, a exemplo de um pé de Cambuci trazido de Paraibuna que frutifica o ano todo, ou de um segundo colocado à sombra que não dá frutos. “Trabalhei bastante com um pé que trouxe do Festival no Mercadão, em São Paulo. No dia em que comprei a muda, vimos um assalto próximo, e lembro que ela chegou estressada, demorou para pegar”, comenta Teresa.

Na época da safra, é preciso seguir um ritual diário de colheita e entrega, tanto dos próprios pés como do contato com os cooperados. Pela manhã, antes de sair para o trabalho na prefeitura, ela coleta os primeiros frutos, lava e transporta à cooperativa. Na hora do almoço e no fim do dia, faz novas coletas, lava e mantém os Cambucis na geladeira até o dia seguinte.

Ainda passa diariamente na casa de dois moradores que fornecem para a Coopercambucy mas vendem diretamente à Teresa. “Às vezes as 11 horas da noite começo a lavar o que peguei, se não for para a geladeira no mesmo dia, pode estragar”.

Há seis anos, ela ganhou de presente de aniversário dos amigos uma cota para fazer parte da cooperativa, junto com quatro mudas de Cambuci para plantar no quintal. “Lembro que todos riram quando cheguei comemorando, no primeiro ano, que tinha colhido 12 frutos!”.

Talvez não desconfiasse que o envolvimento com a cadeia produtiva ligada ao Cambuci aumentaria tanto, do plantio até a conquista do selo da cachaça de Rio Grande da Serra. O que leva a produtora a sonhar com um espaço exclusivo para a Cooperativa voltado ao cultivo e à visitação de grupos interessados. “Acredito que a qualidade da matéria-prima é o que temos de mais importante e isso merece ser conhecido”, finaliza.

 

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One Response to Cambuci expressa vocação natural de município do Alto da Serra

  1. Ana Maria Ferreira da Silva Zamaro

    Parabéns a vocês por preservarem essa planta e frutos tão diferentes e gostosos! Sucesso.

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